Quando colocamos nosso blog no ar e solicitamos sugestões para temas que abordaríamos, o primeiro retorno solicitava que falássemos sobre casais que trabalham juntos. Tema sobre o qual não temos muita intimidade, pois nunca trabalhamos juntos, apesar de termos tido oportunidades para isso.
Aliás, essa foi uma opção consciente de minha parte, apesar da Ana sempre dizer que desejaria me ajudar quando tivéssemos um negócio próprio. Eu creio que permanecer juntos por todo o dia não faria bem ao nosso casamento, apesar de conhecer muitos casais que trabalham no mesmo ambiente e, aparentemente, conseguem evitar problemas de relacionamento.
Você já deve ter ouvido as expressões cara-metade ou alma gêmea, dita por alguém que se referia ao seu cônjuge. Ambas expressões referem-se as pessoas como partes complementares do casal. Na Bíblia, Deus usa uma expressão marcante: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne.” (Efésios 5:31), em outro texto o Senhor é ainda mais enfático: “Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém o separe”. (Mateus 19:6)
Vejam que a proposta de Deus é uma união perpétua, indissolúvel, mas que represente mais que a complementariedade do homem e da mulher. Ele quer que sejamos fundidos um com o outro, uma fusão física e espiritual. Isso significa que nos conheceremos tão bem que teremos pensamentos e compreensões muito semelhantes. Seremos um só, eternamente.
Faz tempo que discutir sobre as diferenças entre homens e mulheres virou lugar comum. Concordamos que somos diferentes, mas se somos assim, não atendemos a vontade de Deus, pois não estamos fundidos em um só, o que nos faria iguais. A verdade é que entramos no casamento com posições muito consolidadas e sem disposição alguma de abrir mão de nosso jeito de ser para sermos algo novo, resultado de nossa fusão com o outro.
Partindo dessa dificuldade de abrirmos mão de nossas posições, sempre seremos vistos pelo outro como a cara-metade ou a alma gêmea, expressões que encerram conceitos que implicam em dois seres distintos, mas que se completam. Isso que dizer que são indivíduos, pessoas únicas, com seus jeitos particulares.
Também é preciso que lembremos que os casamentos são relacionamentos complexos que envolvem vários aspectos de interação entre os cônjuges. Homens e mulheres precisam estar prontos para serem carinhosos, sedutores, racionais, amorosos, enérgicos, íntimos, brincalhões, etc. Todas essas facetas fazem parte de um relacionamento matrimonial comum e completo, na perspectiva humana. Os pares sabem de detalhes pessoais um do outro que só é possível aos casados, dado ao grau de intimidade e convivência que existe entre eles.
Por outro lado, no ambiente de trabalho, os relacionamentos são conduzidos em conformidade com padrões bem formais e delimitados. Existem aspectos legais, hierárquicos, sociais que delimitam a interação entre as pessoas, principalmente se forem de sexos distintos. Essas convenções e regras permitem uma condição estável e segura para os envolvidos.
É claro que o nível de intimidade das pessoas, no ambiente profissional, é muito menor, por mais que as pessoas sejam amistosas, nunca saberão de detalhes muito particulares uns dos outros. Essa situação é até bastante desejável, pois mantém uma equidistância entre os membros da organização, tornando os relacionamentos bastante confortáveis para todos.
O que ocorre com o casal que trabalha junto é que todas as condições formais desejadas para o relacionamento profissional são quebradas e subvertidas. Ambos dispõem de armas secretas (bem conhecidas pelo outro) que podem ser usadas a qualquer momento para avançar um pouco além do limite que seria natural entre profissionais.
Eu não estou dizendo que é impossível você trabalhar com seu cônjuge. O que acredito é que um dos lados do relacionamento pode sofrer abalos por conta da manutenção equilibrada do outro. Como a vida profissional é mais exposta a terceiros, a vida intima do casal pode ser bastante abalada, caso haja enfrentamentos ou conflitos entre os dois no ambiente profissional. Sem contar que, se na intimidade o relacionamento sofreu um baque, muito certamente o ambiente profissional já estará comprometido.
Digo isso porque os indivíduos precisam de momentos de privacidade. Não que isso implique em segredos, mentiras ou coisas escondidas. Mas são aqueles momentos em que as interações sociais extra-conjugais precisam acontecer. Afinal, somos gregários, não vivemos isolados como um casal-ilha. Na verdade temos inúmeros papéis sociais que precisamos desenvolver. São as nossas expressões de individualidade.
No mundo contemporâneo, muitas dessas interações são construídas no ambiente de trabalho, o que leva o casal que trabalha junto a desenvolver relações muito próximas ou comuns a ambos, o que, de novo, converge para uma disputa de espaço social extra-conjugal, que conta com as armas secretas da intimidade conjugal.
Outro ponto a ser considerado é a disputa profissional por melhores posições ou pela liderança na organização. Imagine como deve ser desconfortável você competindo com seu cônjuge por um mesmo cargo. Ou pior, se você ocupar um cargo de chefia e o cônjuge de seu subordinado. Como seria nos momentos de avaliação profissional? Os demais colegas confiariam em sua opinião? Você não seria mais exigente com quem você ama?
Tudo isso me leva a crer que trabalhar junto com seu cônjuge é possível, mas exigirá das pessoas muita atenção aos papeis de momento e uma conduta altamente segmentada, para evitar conflitos advindos dos relacionamentos paralelos.
Eu recomendaria muito cuidado ao adotarem essa opção. Mas se ela for inevitável, mediem os problemas com um diálogo franco, carinhoso, sincero e revestido pelo amor de Deus. Lembrem sempre que casamento é para sempre, o trabalho é por um tempo.
